domingo, 4 de junho de 2017

Crítica: Mulher Maravilha



Como todo mundo deve saber, sou assumidamente fã da DC Comics. Não me entendam mal, também gosto muito da Marvel (minha estante prova isso). No entanto, sempre tive predileção pelos temas trazidos pela Dc Comics e seus personagens. Isso também se refletiu no cinema, do "Superman" de 78, até a trilogia "Batman" de Christopher Nolan, gosto muito da maneira com a qual foram transpostos os personagens para as grandes telas. Em 2013, a DC lançou seu universo compartilhado no cinema (aos moldes do Marvel Studios) com "Homem de Aço". Muitos gostaram (eu), e muitos detestaram. Em 2016, lançaram dois grandes fracassos de crítica: "Batman vs Superman" e "Esquadrão Suicida" (como sempre, lembrando que gostei muito do 1o e detestei o 2o).

Portanto, quando foi anunciado o filme da Mulher Maravilha, havia pouca fé. Pois, mesmo com os filmes anteriores tendo fãs muito apaixonados (e sim, inacreditavelmente existem muitos fãs de "Esquadrão Suicida"), faltava um filme que fosse um sucesso unânime de crítica e público. Fico feliz em dizer, que este filme é "Mulher Maravilha". Longa dirigido por Patty Jenkins ("Monster"), que traz personagens carismáticos, ação extraordinária e um roteiro coeso capaz de levantar inúmeras questões relevantes.

A trama acompanha Diana (Gal Gadot), filha da Rainha das Amazonas, adentrando uma missão no mundo dos homens para acabar com a Primeira Guerra Mundial (acreditando ser causada pelo deus Ares). Isso é o que falarei da trama, pois as surpresas valerão a pena.



Se você assistiu aos três filmes anteriores da Dc e não gostou do tom "pesado e sombrio", fique tranquilo: "Mulher Maravilha" é um filme muito mais leve. Repare como que a partir do momento que Diana chega na capital do Reino Unido, o filme ganha contornos de uma aventura digna de "Indiana Jones" ou até "Tintim". Tudo isso sem a necessidade de colocar piadas a cada 5 minutos. 

Esse clima mais leve, é influência da diretora Patty Jenkins, Que deixa clara a influência do "Superman" de 1978 (chegando a fazer uma homenagem direta à cena que Clark Kent/Superman segura um tiro que acertaria Lois Lane num assalto). Recheando a trama com coadjuvantes que não são figuras unidimensionais (cada um possui sua história, suas motivações e conflitos), sem diálogos expositivos (perceba a cena na qual uma médica nota que um ferimento de Diana cicatrizou. Ela meramente diz "Estranho", enquanto que um filme mais desacreditado soltaria algo como "Veja que estranho, seu ferimento recente já cicatrizou. É quase como se você tivesse poderes").

Outro aspecto digno de nota de "Mulher Maravilha" são suas cenas de ação. Apesar de eu gostar muito dos confrontos épicos de "Homem de Aço" e "Batman vs Superman", ambos os filmes apostavam muito na brutalidade e no impacto das cenas de ação. Em "Mulher Maravilha", a direção tomada foi na elegância. Portanto, ao invés de vermos seres que partiam pra cima com tudo, aqui é apresentada uma mulher que desde pequena treinou para guerra. Então, são golpes menos afobados, apostando em movimentos menos espalhafatos e sim na precisão. A câmera lenta apresentada nas cenas, serve justamente para que o espectador entenda toda a estratégia da personagem para subjugar seus inimigos.




Apesar de todos os pontos que apresentei serem fantásticos, a verdadeira cereja do bolo do filme é a maneira com a qual é abordada a questão da desigualdade de gênero. Quando Diana chega em Londres, constantemente é repreendida (para depois bater de frente) pelo fato de querer exercer mesmas ações dos homens. Seja lutar no front de batalha, ou até participar de uma reunião intelectual. E cada vez que Diana se impõe ao ouvir as regras do mundo dos homens e as maneiras com as quais as mulheres são subjugadas, é impossível deixar de perceber que mesmo se passando na Primeira Guerra Mundial, os problemas apresentados aqui continuam vivos como nunca. 

Isso fica ainda mais interessante, por conta da dinâmica entre os personagens de Diana (Gal Gadot) e Steve (Chris Pine). Constantemente, a protagonista questiona as crenças do militar (a maneira com a qual uma mulher deve se vestir, como ela deve se portar, como ela deve obedecer), e o próprio espectador percebe que apesar de ser uma boa pessoa, Steve é um produto do seu tempo. É quase como se o personagem fosse o reflexo da platéia sobre os atos da protagonista. Reconhecendo com admiração, e ao mesmo tempo percebendo suas próprias limitações (e claro, constantemente tendo que ser salvo pela heroína).

Existem alguns problemas, como não poderia deixar de ser. O terceiro ato é um tanto frágil (o vilão é bacana, no entanto é apresentado de maneira apressada), sendo bastante contrastante com o resto do filme (muitas explosões, muitas frases de efeito,a receita básica do final de um filme de super-herói). Porém, não compromete o filme. Que será lembrado daqui a alguns anos como o 1o grande filme de uma super-heroína já feito. Tendo como cena motriz, o belo momento no qual Diana avança no front e é recebida por balas de todos os homens do campo adversário, Ela resiste e vai avançando sem deixar se abalar. Uma representação perfeita da histórica luta feminina pela igualdade de direitos. 

Nota: 8,5