domingo, 9 de julho de 2017

Crítica: Homem-Aranha De Volta ao Lar


Após 5 produções, a Sony resolveu ceder os direitos do Homem-Aranha ao Marvel Studios, numa parceria na qual o cabeça de teia seria enfim integrado ao universo cinematográfico de personagens como Homem de Ferro e Capitão América. Desde o anúncio deste novo filme, foram prometidos: um protagonista que de fato está no colegial (assim, ele tem 15 anos e o ator tem idade próxima a isso), uma trama e lutas muito mais contidas (a megalomania dos 5 filmes anteriores seria deixada de lado) e um tom muito mais leve para as aventuras de Peter Parker (sem aquele peso presente nas encarnações do herói de Tobey Maguire e Andrew Garfield).

A história acompanha o jovem Peter Parker (Tom Holland), que sendo um jovem de 15 anos que ainda se encontra no colegial, mantém-se impressionado com sua  breve parceria com Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr) em "Guerra Civil". Assim, ele constantemente se vê ambicionando missões maiores do que simplesmente retirar o gato da árvore ou ajudar senhoras a atravessar a rua. O que culmina com a aparição de um criminoso intitulado de Abutre (Michael Keaton).

Sinto em ser aquele que dará um banho de água fria, mas achei esse novo filme do Homem-Aranha muito bobinho. Sabe aquela história de muitas críticas iniciais que diziam "É O MELHOR FILME DO HOMEM-ARANHA JÁ FEITO"? Acho que todos elas foram escritas por pessoas antecipadas demais. Falarei mais disso abaixo.




Pra começar, beleza. Eu entendo que a proposta do filme era fazer uma trama mais adolescente, contida e por quê não, mais inocente. No entanto, ser adolescente não significa que a trama tenha que ser boba e tonta. Tomemos por exemplo o bully de Peter Parker, Flash Thompson. Toda vez que ele vai zoar e atormentar o jovem Peter Parker, ele se limita a proferir frases como "Haha, Pênis Parker", ou então a ficar bravo porque ele não soube responder a pergunta que Parker soube (basicamente, Flash quer ser o gênio que Peter é). Grande bully, hein (o coitado chega a ser dj)? Faz o velhinho do Up parecer ameaçador.

Ou então, beleza. Entendo que eles queiram dar destaque para personagens que virão ser desenvolvidos nos próximos filmes, mas toda vez que Michelle (Zendaya) faz um de seus comentários, ela não parece uma jovem inteligente com comentários sarcásticos e engraçados. Ela só parece chata mesmo. É triste dizer isso, mas não somente as piadas da personagem são ruins. Esse é o filme da Marvel no qual as piadas mais soam forçadas. E sim, nisso estou comparando com o péssimo "Homem de Ferro 3".

Sem querer dar spoilers, outro sério problema que enxergo no filme é o fato de todos os momentos no quais civis estão em perigo, terem sido causados pelo próprio Homem-Aranha. Por mais que o vilão seja uma ameaça com um certo grau de perigo, diretamente ele não chega a ameaçar pessoas em suas ações. Ele é um ladrão equipado com tecnologia de ponta. Já o protagonista, sempre quer resolver a situação do seu jeito (levando em conta que é um adolescente, ou seja: completamente desajeitado, faz tudo errado, não pensa duas vezes) e acaba estragando tudo (como na cena da balsa). Eu entendo a intenção dos roteiristas em dizer que ele ainda é um herói em treinamento, mas precisava usar isso em todas as cenas que o herói age?





Falando nelas, eu sinto desapontar mas este é o filme da franquia com menos cenas de ação inspiradas. Apesar do uniforme do Homem-Aranha ser belíssimo, e até mesmo os equipamentos do Abutre serem interessantes (distantes do visual dos quadrinhos, mas incrivelmente funcional), os confrontos entre os dois são no mínimo preguiçosos. Uma leve comparação pra vocês entenderem: "Esquadrão Suicida" é um filme com cenas de ação melhores e mais elaboradas (e sempre lembrando, que até nisso o filme da DC conseguiu falhar).

No entanto, o filme não só possui erros. A começar pelo elenco, que é competente. Ainda não sei dizer se Tom Holland é o melhor Homem-Aranha, no entanto ele é o ator que encarna Peter Parker com mais naturalidade. Por uma simples diferença aos outros dois intérpretes anteriores do herói: ele é um jovem na faixa etária do personagem. A empolgação que ele transparece sempre parece genuína, e o misto de inocência só contribui para acreditarmos na figura do personagem (reparem como ele reage ao ver uma arma com um poder inacreditável: se esquecendo completamente que aquele vilão quer utilizar o poder desta para destruí-lo). Além disso, os momentos nos quais precisa demonstrar uma certa fragilidade (o momento dos escombros) convencem.

Os coadjuvantes também são interessantes. A química estabelecida entre Peter e Ned (Jacob Batalon) é sensacional, as participações especiais de Tony Stark (Robert Downey Jr) e Happy Hogan (Jon Favreau) são econômicas e divertidas. O mesmo não pode ser dito da participação da Tia May (Marisa Tomei). Sua personagem até transparece uma preocupação com seu sobrinho, mas o roteiro só a usa como "a tia gostosa". Percebam que todos os personagens masculinos que interagem com ela no filme, quando a veem parecem ativar um "modo pedreiro". Gente que dá comida de graça, gente que faz comentários sobre ela ser demais (até o melhor amigo de Peter que tem 15 anos). Cheguei a temer que em algum momento, um caminhão passasse ao lado dela e desse uma buzinada.


Mas de todos os nomes envolvidos, quem realmente se destaca é Michael Keaton. O ator consegue pegar um personagem que não possui longos monólogos ou que seja excêntrico (afinal, vilões de quadrinhos sempre acabam se restringindo a isso), e cria uma figura no mínimo realista. Toomes jamais se auto-intitula "abutre", não usa uniforme espalhafatoso para assaltar bancos ou ameaçar pessoas e inspirar medo. É simplesmente um traje com as ferramentas necessárias para transportar os materiais que ele precisa e garantir a segurança dos seus negócios. Além disso, o roteiro inúmeras vezes deixa claro que ele não quer dominar o mundo. Mas sim, conseguir o dinheiro necessário para sustentar os seus entes queridos (fazendo um paralelo interessante com Tony Stark, "Por que quando ele vende armas para assassinos, ninguém o confronta?"). Apesar disso, em todo momento no qual ameaça alguém o tom nas falas do ator sempre soa ameaçador e perigoso (sempre levando em conta, que ele foi o Batman e Beetlejuice). O que o difere do péssimo Barão Zemo (Daniel Brühl) de "Guerra Civil". Que no final das contas, era só um pobre coitado. O "Abutre" de Michael Keaton, é um vilão que não quer ser vilão. Mas que sendo necessário, o fará com toda violência possível (não é a toa, que muitos o estão comparando ao Tony Soprano interpretado por James Gandolfini, na sensacional série "Família Soprano").

Como vocês já devem ter percebido, eu não achei o novo Homem-Aranha um filme tão bacana assim. Não sei se por conta da expectativa da Marvel trazer para si seu filho favorito, ou se o fato de ser um filme do personagem sempre ser um filme evento (com efeitos especiais fantásticos, cenas de ação espetaculares, bom humor). Mas achei um filme muito bobinho e muito aquém da qualidade Marvel. Que por mais que não sejam meus filmes de super-heróis favoritos (prefiro o tom sério e "realista" da Dc), sempre conseguiam entregar um produto competente. No caso de "Homem-Aranha: De Volta ao Lar", o resultado foi um filme pelo menos esquecível.

Nota: 6,5

Ps: farei um comentário com spoilers referentes ao final do filme, se você quiser ler sublinhe abaixo:
Por que o Abutre não entrega a identidade do Homem-Aranha quando é preso? O cara destruiu sua vida, o fez ir pra cadeia, acabou com o sustento de sua família. MAS NÃO: vou guardar a identidade pra mim porque ele salvou minha vida. Que bullshit.

sábado, 1 de julho de 2017

Filmes Assistidos de Janeiro a Junho

Como alguns de vocês devem ter percebido, o número de críticas diminuiu bastante nos últimos meses. Isso se deve pelas atividades da faculdade (eu estava no final do semestre, então estou escrevendo este post num respiro de tempo). No entanto, para não deixar o espaço aqui vazio, resolvi fazer algo diferente. Este post reunirá todos os filmes lançados em 2017 no Brasil que pude assistir (de janeiro a junho), com alguns pequenos comentários e a devida nota.

Okja-Dirigido por Boon Joon Ho: 7,5
Novo filme do diretor de "O Hospedeiro" e "Snowpiercer" exibe as mesmas qualidades dos anteriores (o contexto familiar, a fábula com comentário social, o humor estranho), no entanto é o longa mais irregular de sua filmografia. Se em certos momentos, existe uma clara tentativa de fazer uma fantasia com comentários sociais, por outras flerta também com comédia (o personagem de Jake Gylehall é completamente destoante do resto do elenco, afetado e forçando uma fisicalidade que parece emular o Ace Ventura) e com o terror (a cena na qual é mostrada a perspectiva de Okja dentro do armazém). A mescla de gêneros não funcionou muito bem aqui. No entanto, os efeitos especiais, a relação entre a criatura e a menina, a atuação de Paul Dano e Tilda Swinton e a triste mensagem salvam o filme.




Assassin's Creed-Dirigido por Justin Kurzel: 4
Adaptação de game segue a linha das tentativas de se transpor games pro cinema, e falha miseravelmente. Mesmo com um excelente diretor e um elenco carismático, "Assassin's Creed" possui um roteiro medíocre, cenas de ação pouco inspiradas e além de tudo é incrivelmente entediante. No mínimo, imperdoável para um filme baseado num jogo de ação tão bem feito. Para saber mais sobre ele, leia a crítica.




A Lei da Noite- Dirigido por Ben Affleck: 8
Novo filme de Ben Affleck, tem ambição exacerbada. Fazendo um longa que consegue ser uma mescla entre "Scarface" (o de 1933, não o remake de Brian De Palma) e "O Aviador". Contando a história de um homem que por conta de uma motivação pífia, ergue um império criminoso (que se mescla com a própria industrialização e riqueza dos Eua). Uma pena que o protagonista seja tão apático, ainda mais se considerarmos a grandeza e escala do filme.




John Wick: Um Novo Dia Para Matar-  Dirigido por Chad Stahelski: 9
O 1o John Wick foi uma surpresa. Um filme de ação com um protagonista moldado a partir dos papéis anteriores de seu intérprete (Keanu Reeves, que tem toda uma carreira com artes marciais além de "Matrix"), que construía uma trama completamente absurda mas ao mesmo tempo divertidíssima. Mesclando ainda, excelentes sequências de ação e uma mitologia interessante. A continuação não é diferente, eleva tudo que foi apresentado no filme anterior à enésima potência. Quase que um musical de ação, "John Wick: Um Novo Dia Para Matar" só não é mais perfeito por conta do seu cliffhanger. Que torna insuportável a espera para o terceiro filme.


A Múmia- Dirigido por Alex Kurtzman: 5
Quando foi anunciado um novo "A Múmia", poucas pessoas botaram fé. Por mais que fosse estrelado por Tom Cruise (que goste ou não, tem feito blockbusters bons) e Sofia Boutella (uma das surpresas de "Kingsman"), havia um consentimento de que o remake do remake fosse fracassar. Dito e feito, o filme é simplesmente irregular. Além de possuir uma trama cheia de furos, visualmente ser completamente desinteressante (perceba como que todos os mortos-vivos são idênticos), o filme ainda é entediante. Digam o que quiserem de "A Múmia" estrelado por Brendan Fraisier, mas chato não era.



Rei Arthur-Dirigido por Guy Ritchie: 6
Guy Ritchie é um diretor curioso. A proposta dos seus filmes mais recentes demonstram uma clara tentativa de reinventar sua carreira, afinal: o que Sherlock Holmes poderia ter de similar aos gangsteres de "Snatch"? No entanto, seja no filme do detetive ou em "O Agente da U.N.C.L.E", o diretor britânico parece sempre retornar aos bandidos cockneys característicos de seus filmes iniciais. Em "Rei Arthur" isso não é diferente. É mostrado um Arthur malandro, cavaleiros da tábula redonda que utilizam jargões de gangues modernas. O bizarro, é que além dessa visão "moderna", o diretor ainda incluiu: batalhas a lá "Senhor dos Anéis" (lembra dos Olifantes?), criaturas que parecem ter saído da ilha de "King Kong", sequências em slow motion que parecem saídas de um clipe de banda de metal de segunda. Ou seja, uma grande salada que não faz o menor sentido. Existem casos que imperdoavelmente alguns filmes são fracassos de bilheteria. Assistindo a "Rei Arthur", dá pra entender perfeitamente o motivo.


Silêncio- Dirigido por Martin Scorsese: 10
Um tema recorrente na filmografia de Martin Scorsese, é o contraste da fé e da violência exercida pela exacerbação desta. Nisso incluem-se tanto os mafiosos de "Os Bons Companheiros" e "Cassino" com seus códigos de honra, o corretor de "O Lobo de Wall Street" e o dinheiro e até mesmo Jesus e o seu medo de morrer na sua missão de salvar a humanidade em "A Última Tentação de Cristo". O último filme do italo-americano, "Silêncio", não é diferente. Mostrando a missão de dois padres jesuítas (Andrew Garfield e Adam Driver), em ir ao Japão resgatar um antigo mentor (Liam Neeson), que parece ter sido convertido ao budismo e renunciado a fé cristã. Além dos paralelos claros com "Apocalypse Now" (a viagem ao inferno ao tentar procurar um antigo mentor), o filme estabelece uma discussão muito interessante: o que define a fé, a sua manifestação dela ou a sua mera crença íntima? A resposta, encontra-se no título. Que também define à resposta de Deus diante toda a violência e injustiça presentes no mundo.



Internet O Filme- Dirigido por Fillipo Capuzzi Lapietra: 1
Eu não sei porque vi este filme, estava ali na Netflix e pensei que talvez eu estivesse sendo preconceituoso. Aí resolvi conferir. Eu devia ter me mantido nos meus preceitos anteriores: "Internet O Filme" é ofensivo (um dos segmentos do filme, mostra uma competição: quem pegar a menina gorda e negra, leva o prêmio), estúpido (piada com pum, piada com pinto) e sem graça. Se por um lado, uma merda de filme, por outro um retrato bastante coerente do que é essa idolatria por Youtubers.



Fragmentado- Dirigido por M. Night Shyamalan: 8
Após um retorno ao caminho da luz com o divertido "A Visita", Shyamalan retoma temas recorrentes de sua filmografia (natureza humana/natureza animal, fé tornar certos eventos extraordinários) e faz suspense interessante. Apesar de possuir algumas falhas bem gritantes (como a pior psicóloga do mundo), o elenco e os contornos inesperados que a história traça fazem valer a pena a experiência. Para saber mais, leia a crítica.



The Void-Dirigido por Steven Kostanski e Jeremy Gillespie: 8
Uma das coisas que mais reclamo nos filmes de terror atuais, não é a falta de criatividade. Mas a tendência de fazer todo sangue e design de criaturas por meio de computação gráfica. Enquanto que nos anos 70/80, tudo era feito artesanalmente, gerando muito mais impacto no espectador. Os diretores de "The Void" perceberam isso, e criaram um filme com inspiração clara em Lovecraft. Assim, litros e litros de sangue falso são derramados, criaturas horrendas com tentáculos surgem (e todas feitas com próteses, animatrônicos), tudo que marcou o auge do cinema de horror está presente. Uma pena que faltou apresentar um pouco mais da mitologia ao culto dos antagonistas, mas como uma boa história de Lovecraft, talvez seja melhor deixar o mistério.



La La Land- Dirigido por Damian Chazelle: 7
O musical que quase ganhou o Oscar de melhor filme não é nada demais. É bonitinho, tem um elenco carismático e competente, possui um diretor bom. Mas tem uma história escassamente simples, não possui tantas músicas memoráveis (você consegue se lembrar de alguma além de "City of Stars"?), tem números musicais pouco elaborados. Acho curioso como que musicais recentes como "Sweeney Todd", "Os Produtores", "Across Universe" são muito melhores e não receberam essa aclamação. Quer saber o que mais acho do filme? Leia a minha crítica.



Justice League Dark- Dirigido por Jay Oliva: 7,5
Se no universo cinematográfico live action a Dc divide opiniões, no universo de animação ela é amada por todos. Animações como "O Cavaleiro das Trevas", "A Morte do Superman", "Mulher Maravilha" são excelentes. Portanto, as expectativas pras novas animações são sempre altas. No caso de "Justice League Dark", a animação é boa. Mas aposta em alguns clichês (especialmente no seu "Plot Twist"), que fazem refletir se a mão de um roteirista mais experiente não teria tornado o filme inesquecível. Além disso, desperdiçar um personagem excelente como Monstro do Pântano é simplesmente imperdoável.



T2- Trainspotting- 10
Eu assisti "Trainspotting" quando tinha 13 anos. Ainda estava na escola, não tinha a menor ideia do que faria na minha vida. Assisti a continuação, "T2 Trainspotting" com 21 anos, na metade da faculdade. É impressionante como que esta sequência apesar de ser tão engraçada quanto a original, é madura o suficiente para analisar os personagens de uma maneira mais realista. Mostrando como que as escolhas feitas no passado tiveram efeitos decisivos para a vida de cada um deles, e como que as coisas que repudiavam no passado (estabilidade financeira, uma família), agora se tornam ambições que nunca alcançarão (representada muito bem, na cena inicial: na qual Renton corre numa esteira. Um objeto no qual você pode correr o quanto quiser, mas nunca chegará a destino nenhum). Capaz de fazer rir e chorar em proporções iguais, "T2-Trainspotting" é tão relevante quanto seu antecessor. Dizer isso sobre uma continuação, ainda de um dos filmes mais relevantes dos anos 90, é algo a se considerar.



Lego Batman- Dirigido por Chris Mckay: 8
O mais novo filme da franquia Lego, reconhece Batman como um fenômeno da cultura pop. Assim, faz referência e tira sarro de todo merchandising, filmes, quadrinhos que o personagem teve nos seus quase 80 anos de história. Além da sátira hilária (a senha do batcomputador: "Iron Man sucks"), o filme ainda é um belo presente aos fãs do personagem. Visto que são poucos os filmes dele que são dignos de nota. Para saber mais o que achei, leia a crítica.



Manchester à Beira Mar-Dirigido por Kenneth Lonergan: 9
Drama indicado ao Oscar reflete sobre a natureza do luto, e a ação mais difícil de todas: o se perdoar. Investindo em um elenco excelente (Michelle Williams, Matthew Broderick, Kyle Chandler e o grande destaque e protagonista, Casey Affleck), um roteiro doloroso e triste e numa reflexão que pode não ser pra todos. Mas que é essencial.




Ghost in the Shell- Dirigido por Rupert Sanders: 8
Recebido com frieza por crítica e público, "Ghost in the Shell" foi uma adaptação que gostei muito. Além de respeitar o mangá e animação originais, o filme faz inserções bastante coerentes ao cânone da história. Seja para o passado da Major (Scarlett Johansson), quanto para o Section 9. Fora o espetacular visual que possui cgi, mas que também possui muita coisa criada artesanalmente pela Weta (as gueixas aranhas, por exemplo). Honestamente, acho que a rechaça foi injusta. Daqui a alguns anos, creio que este filme será visto com outros olhos. Para ler mais sobre, leia a crítica.




Life- Dirigido por Daniel Espinosa: 7,5
A proposta de "Life" foi criar um sci-fi simples. E tudo bem, o fizeram. É um bom filme, com um ótimo elenco (Jake Gyllehall, Rebecca Fergunsson, Ryan Reynolds, Aryion Bakare) e com efeitos especiais econômicos mas decentes. No entanto, não há nada original no filme. Da sequência inicial na qual é mostrada a nave num longo travelling (tirado de "Gravidade"), até o ataque do alienígena ("The Thing" ou qualquer filme da série "Alien") tudo é retirado de outro filme. O que tudo bem, nada é original de fato no cinema. Mas um respingo qualquer de criatividade seria bacana.




Kong: Skull Island- Dirigido por Jordan-Vogt Roberts: 7,5
Quarta versão de King Kong no cinema resolve concentrar-se na terra do gorila gigante. Assim, têm-se um contexto de Guerra do Vietnã (com toda trilha sonora que tem direito: Creedence Clearwater, Stones), influências de quadrinhos, influências de jogos e voilà, temos um novo filme "original". Agora sendo bem honesto, apesar de possuir sequências de fato impressionantes (o 1o ataque de Kong), o filme é bem econômico. Os personagens se dividem em arquétipos (militar que quer poder vivenciar uma nova guerra pessoal, fotógrafa pacifista, protagonista que é bom em tudo mas não quer assumir compromisso, maluco que acredita no culto ao macaco e servirá pra explicar tudo), o design das criaturas não é tão detalhista assim (percebam que todos os crawlers são iguais, até o maior de todos) e o final do filme soa um tanto apressado. É um bom filme? É, cumpre bem seu papel. Mas poderia ser épico.






Guardiões da Galáxia Volume 2- Dirigido por James Gunn: 8
O mais novo capítulo dos Guardiões da Galáxia é tão engraçado e visualmente interessante quanto seu antecessor, ainda conseguindo (pasmem) adicionar camadas de seriedade aos personagens. Todos eles (sem exceções) possuem um grau a mais de profundidade, o que é muito bem vindo. O problema é que parece que o roteiro de James Gunn não quer realmente explorar essas questões, perceba como que após uma cena na qual Gamorra (Zoe Zaldana) e Nebula (Karen Gillian) tem um momento emocionante há um corte imediato para Rocket (Bradley Cooper) fazendo uma piada com seu traseiro. Não sei até que ponto foi interferência da Marvel em não deixar as coisas sérias demais, no entanto acredito que os filmes já estejam tão saturados com as piadinhas, que mesmo uma mudança breve como a vista em "Guardiões 2" seria muito bem vinda.



Alien Covenant- Dirigido por Ridley Scott: 8
Eu não consigo gostar de "Prometheus". Por mais que tenha um visual impecável e uma atuação incrível de Michael Fassbender, o filme ainda possui um dos roteiros mais recheados de diálogos estúpidos que já vi (além de não entregar nada digno da série "Alien"). Fico muito feliz em dizer, que "Alien Covenant"era tudo que eu queria ter visto em "Prometheus". Além de ser um roteiro muito melhor escrito, ainda responde todas as questões que o filme anterior deixou em aberto, possui cenas de matança com o Alien que são sensacionais e ainda tem Michael Fassbender retornando a um personagem impecável. Tendo como único defeito grave a falta de profundidade da tripulação da nave, "Alien Covenant" é um belo retorno da série ao que tornou-a memorável.




A Bela e a Fera- Dirigido por Bill Condon: 5
A Disney tem investido em versões live action de suas animações clássicas, assim foram lançados filmes como: "Malévola", "Cinderela" e o melhor de todos, "Mogli". Quando foi anunciado o remake de "A Bela e a Fera", confesso que fiquei feliz, era uma das animações que mais assisti quando criança e o diretor Bill Condon (apesar de ter feito os últimos dois "Crepúsculo") havia dirigido ótimos filmes como "Deuses e Monstros". Infelizmente, seu "Bela e a Fera" não é 10% do filme original. Limitando-se a simplesmente reproduzir (e de maneira preguiçosa) o que já havia sido criado na animação (compare com "Mogli", que adiciona várias novas camadas e cenas, criando realmente uma nova história). Além disso, o cgi muitas das vezes falha miseravelmente (alguém realmente teria medo da Fera? Alguém achou os objetos memoráveis ou visualmente interessantes?), nenhuma das cenas clássicas tem o impacto da cena original. Um filme deveria ter mérito maior para existir além da nostalgia, coisa que esse "Bela e a Fera" não possui.



Logan- Dirigido por James Mangold: 9
Último filme de Hugh Jackman como Wolverine é tudo que os fãs sempre quiseram ver num filme do personagem: violento, sujo e pesado. Tratando Wolverine como um sobrevivente e não como um herói, "Logan" tem uma abordagem muito mais realista do personagem. Definindo que não importa se a pessoa é boa ou não, matar é um ato abominável, que mesmo grandes mentes podem sucumbir (como é o caso de Xavier, que possui uma doença degenerativa como Alzheimer) e que nunca se deve abandonar a esperança (simbolizada por Laura). Se quiser ler mais sobre o que achei de "Logan", leia minha crítica.



Mulher Maravilha- Dirigido por Patty Jenkins: 8,5
Só pelo fato de "Mulher Maravilha" ser o 1o grande filme de super heroína já feito,  já seria revolucionário no cinema. Mas também é um blockbuster leve, divertido (com piadas, mas que não surgem a cada dois minutos, ouviu Marvel?), recheado de cenas de ação empolgantes e ainda traz à tona diversas questões interessantes (a natureza da guerra, o machismo, a desigualdade de gênero). Falo mais sobre ele na minha crítica, que você pode ler clicando aqui.



domingo, 4 de junho de 2017

Crítica: Mulher Maravilha



Como todo mundo deve saber, sou assumidamente fã da DC Comics. Não me entendam mal, também gosto muito da Marvel (minha estante prova isso). No entanto, sempre tive predileção pelos temas trazidos pela Dc Comics e seus personagens. Isso também se refletiu no cinema, do "Superman" de 78, até a trilogia "Batman" de Christopher Nolan, gosto muito da maneira com a qual foram transpostos os personagens para as grandes telas. Em 2013, a DC lançou seu universo compartilhado no cinema (aos moldes do Marvel Studios) com "Homem de Aço". Muitos gostaram (eu), e muitos detestaram. Em 2016, lançaram dois grandes fracassos de crítica: "Batman vs Superman" e "Esquadrão Suicida" (como sempre, lembrando que gostei muito do 1o e detestei o 2o).

Portanto, quando foi anunciado o filme da Mulher Maravilha, havia pouca fé. Pois, mesmo com os filmes anteriores tendo fãs muito apaixonados (e sim, inacreditavelmente existem muitos fãs de "Esquadrão Suicida"), faltava um filme que fosse um sucesso unânime de crítica e público. Fico feliz em dizer, que este filme é "Mulher Maravilha". Longa dirigido por Patty Jenkins ("Monster"), que traz personagens carismáticos, ação extraordinária e um roteiro coeso capaz de levantar inúmeras questões relevantes.

A trama acompanha Diana (Gal Gadot), filha da Rainha das Amazonas, adentrando uma missão no mundo dos homens para acabar com a Primeira Guerra Mundial (acreditando ser causada pelo deus Ares). Isso é o que falarei da trama, pois as surpresas valerão a pena.



Se você assistiu aos três filmes anteriores da Dc e não gostou do tom "pesado e sombrio", fique tranquilo: "Mulher Maravilha" é um filme muito mais leve. Repare como que a partir do momento que Diana chega na capital do Reino Unido, o filme ganha contornos de uma aventura digna de "Indiana Jones" ou até "Tintim". Tudo isso sem a necessidade de colocar piadas a cada 5 minutos. 

Esse clima mais leve, é influência da diretora Patty Jenkins, Que deixa clara a influência do "Superman" de 1978 (chegando a fazer uma homenagem direta à cena que Clark Kent/Superman segura um tiro que acertaria Lois Lane num assalto). Recheando a trama com coadjuvantes que não são figuras unidimensionais (cada um possui sua história, suas motivações e conflitos), sem diálogos expositivos (perceba a cena na qual uma médica nota que um ferimento de Diana cicatrizou. Ela meramente diz "Estranho", enquanto que um filme mais desacreditado soltaria algo como "Veja que estranho, seu ferimento recente já cicatrizou. É quase como se você tivesse poderes").

Outro aspecto digno de nota de "Mulher Maravilha" são suas cenas de ação. Apesar de eu gostar muito dos confrontos épicos de "Homem de Aço" e "Batman vs Superman", ambos os filmes apostavam muito na brutalidade e no impacto das cenas de ação. Em "Mulher Maravilha", a direção tomada foi na elegância. Portanto, ao invés de vermos seres que partiam pra cima com tudo, aqui é apresentada uma mulher que desde pequena treinou para guerra. Então, são golpes menos afobados, apostando em movimentos menos espalhafatos e sim na precisão. A câmera lenta apresentada nas cenas, serve justamente para que o espectador entenda toda a estratégia da personagem para subjugar seus inimigos.




Apesar de todos os pontos que apresentei serem fantásticos, a verdadeira cereja do bolo do filme é a maneira com a qual é abordada a questão da desigualdade de gênero. Quando Diana chega em Londres, constantemente é repreendida (para depois bater de frente) pelo fato de querer exercer mesmas ações dos homens. Seja lutar no front de batalha, ou até participar de uma reunião intelectual. E cada vez que Diana se impõe ao ouvir as regras do mundo dos homens e as maneiras com as quais as mulheres são subjugadas, é impossível deixar de perceber que mesmo se passando na Primeira Guerra Mundial, os problemas apresentados aqui continuam vivos como nunca. 

Isso fica ainda mais interessante, por conta da dinâmica entre os personagens de Diana (Gal Gadot) e Steve (Chris Pine). Constantemente, a protagonista questiona as crenças do militar (a maneira com a qual uma mulher deve se vestir, como ela deve se portar, como ela deve obedecer), e o próprio espectador percebe que apesar de ser uma boa pessoa, Steve é um produto do seu tempo. É quase como se o personagem fosse o reflexo da platéia sobre os atos da protagonista. Reconhecendo com admiração, e ao mesmo tempo percebendo suas próprias limitações (e claro, constantemente tendo que ser salvo pela heroína).

Existem alguns problemas, como não poderia deixar de ser. O terceiro ato é um tanto frágil (o vilão é bacana, no entanto é apresentado de maneira apressada), sendo bastante contrastante com o resto do filme (muitas explosões, muitas frases de efeito,a receita básica do final de um filme de super-herói). Porém, não compromete o filme. Que será lembrado daqui a alguns anos como o 1o grande filme de uma super-heroína já feito. Tendo como cena motriz, o belo momento no qual Diana avança no front e é recebida por balas de todos os homens do campo adversário, Ela resiste e vai avançando sem deixar se abalar. Uma representação perfeita da histórica luta feminina pela igualdade de direitos. 

Nota: 8,5

domingo, 2 de abril de 2017

Crítica: A Vigilante do Amanhã- Ghost in the Shell



Não é de hoje que Hollywood tenta retirar lucros a partir da cultura pop oriental, desde versões norte-americanas de Godzilla até a abominável adaptação cinematográfica "Dragon Ball Evolution". Na grande maioria das vezes o resultado é sofrível. Pois além de retirarem a maioria dos elementos que tornavam o material original único, ainda tentavam tornar as histórias mais americanas (basta lembrar que na vindoura adaptação live-action de "Akira", Neo-Tokyo se chamará Neo-Manhataan, e transformarão Kaneda em Joe).

Ghost in the Shell é um dos mangás mais influentes de todos os tempos. Uma mistura de filosofia, os conceitos de Asimov, a influência noir sobre o Sci-Fi de "Blade Runner", além de uma visão incrivelmente particular de um futuro próximo. E desde a animação longa-metragem de 95, Hollywood tenta fazer uma adaptação live-action. No entanto, os roteiros de teste excluíam todos os questionamentos presentes na obra, pra simplesmente fazer uma história de uma gostosa que atira em todo mundo (pense em "Nikita" ou até na Alice de "Resident Evil"). Porém, em 2016 foi anunciado que a adaptação seria estrelada por Scarlett Johansson (o que gerou uma polêmica absurda, visto que ela é caucasiana) e que o roteiro manteria o espírito do original.

A história conta a história de Major (Scarlett Johansson), uma mulher que após um evento trágico teve apenas seu cérebro salvo. Assim, uma empresa de robótica chamada Hanka cria um corpo para que ela sirva aos interesses da Seção 9 (um departamento da polícia que cuida de terrorismo cibernético). No entanto, um hacker chamado Kuze (Michael Pitt) começa a assassinar cientistas da Hanka. Então, Major começará uma investigação que poderá culminar em descobertas sobre seu passado.



Eu fico feliz em dizer que "A Vigilante do Amanhã" é uma adaptação sucedida. Começando, por situar muito bem o universo do material original. Os enormes prédios acinzentados, a quantidade de elementos visuais que saltam das telas de outdoors (que remetem diretamente a "Blade Runner"), o design dos veículos (que seguem a lógica de Star Wars: são todos cobertos por arranhões, ferrugem, como se o futuro não fosse o paraíso que sempre presumimos ser), tudo incrivelmente fiel. Sem falar nas cenas que são reproduzidas frame a frame do desenho original: a construção de Major, a briga com o lixeiro, entre outras que não revelarei aqui.

Outro aspecto técnico digno de nota, é a trilha sonora de Clint Mansell. Que muito inteligente, optou por não fazer uma versão genérica da trilha do filme de 95. Mas sim, fazer sua própria versão. Que é mais equiparável ao que Vangelis fez com Blade Runner (eu não estou exagerando, observe os primeiros 5 minutos do filme).

No entanto, o grande destaque do filme é inserir muitos dos questionamentos presentes na obra original. A personagem de Major é muito bem interpretada por Scarlett Johansson, desde a maneira com a qual ela se movimenta (de uma maneira desajeitada e brusca, como se realmente não tivesse todo o controle e sensibilidade no seu corpo) até a maneira com a qual interage com os demais personagens (desde o princípio, fica muito claro que ela não consegue ter qualquer conexão emocional com outros seres). É quase o que Peter Weller fez com o Robocop original. E para minha surpresa, o filme faz uma leve homenagem a Major do longa de 95, que assume que este filme de 2017 é uma nova visão da personagem, mas ao mesmo tempo manteve o esqueleto da mesma. Portanto, mesmo com as mudanças de aparência, a essência da personagem mantém-se intacta.




Não só a Major de Scarlett Johansson foi fiel, mas até mesmo os personagens do elenco coadjuvante. Basta olhar Batou (Pilou Asbaek), um ciborgue que com medo de perder sua humanidade, agarra-se a pequenos elementos ordinariamente humanos (bebe cerveja constantemente, guarda ossos de carneiro para dar a cachorros abandonados na rua). Além de sua caracterização manter o espírito do original. Outro destaque na gama de personagens, é o vilão Kuze (Michael Pitt). Que além de possuir inúmeras camadas na sua personalidade (é quase como Magneto de "X-Men": suas ações são abomináveis, mas entendemos porque tomou tal partido), ainda exibe um design de produção interessante (como se fosse uma carcaça ambulante, e repare o tom de voz adotado por Michael Pitt, emulando Stephen Hawking).

Mesmo investindo muito em traduzir o espírito do original, "A Vigilante do Amanhã" tem certos vacilos. A começar por algo muito simples: a falta de violência. Tanto no filme de 95 quanto no mangá original, as ações dos agentes da Seção 9 sempre resultavam em carnificina. E isso era mostrado em detalhes, para que justamente o leitor/espectador questionasse a natureza bélica dos ciborgues/robôs. Nesta adaptação, inúmeros tiros são dados, vilões recebem golpes fortíssimos (lembrando, de robôs naturalmente mais fortes que humanos), e não há qualquer dano visto.

Outro sério problema, encontra-se em alguns dos diálogos. Com medo que o público médio não entenda parte das filosofias e questionamentos presentes na trama, muitas vezes frases como "Lembre-se, quando aceitamos nossas singularidades, elas se tornam virtudes" surgem, ao invés de simplesmente deixar que o silêncio e a contemplação digam tudo que precisa ser compreendido (além de que pelo amor de Deus: essa fala que dei de exemplo, caberia pra um personagem atormentado de Malhação, e não pra uma mulher que precisa recuperar sua humanidade).

Apesar de alguns problemas, "A Vigilante do Amanhã" é uma ótima adaptação. Respeitando o espírito da obra original, e fazendo mudanças no cânone que são extremamente pertinentes.

Nota: 8

sexta-feira, 24 de março de 2017

Crítica: Fragmentado (Split)



O diretor M. Night Shyamalan é um figura curiosa. Começou lançando filmes muito aclamados, porém vinha fazendo uma bomba atrás da outra. É quase impossível pensar que a mesma mente que concebeu "Corpo Fechado" (que é inclusive, um dos filmes favoritos de Quentin Tarantino), também fez "Fim dos Tempos" (um filme no qual um cara discute com uma samambaia, e no qual pessoas fogem do vento). 

No entanto, após "A Visita" (que não é uma maravilha, mas tem bons momentos), parece que Shyamalan percebeu os erros de sua escolhas narrativas. E podendo enfim, se libertar dessa maldição de filmes ruins com "Fragmentado". Suspense que não apenas exibe um protagonista fascinante, como ainda demonstra o talento do diretor. Além de estabelecer possibilidades interessantes para uma continuação.

O filme acompanha Kevin, (James McAvoy), que numa tarde sequestra três adolescentes. Enquanto, pensam em como escapar do seu cativeiro, as jovens percebem que seu sequestrador possui múltiplas personalidades. Sendo mais preciso, 24 personalidades.

Esse é o fiapo de história que indicarei aqui, pois a graça de "Fragmentado" é justamente ir descobrindo a verdadeira intenção do filme.




Interessante ver como que Shyamalan continua exibindo seus traços característicos: os enquadramentos nos quais coloca o rosto do ator no centro, a falta de foco nos ambientes atrás dos personagens (o que por si só, já cria uma atmosfera alta de suspense, pois deformar o cenário, subjetivamente retira a zona de conforto do espectador). Mas curiosamente, estes toque autorais nunca se encaixaram tão bem em sua filmografia quanto em "Fragmentado". Pois, é como se constantemente a câmera estivesse fazendo o mesmo que nós espectadores: atentamente buscando sinais no rosto de Kevin, para saber quem está nas rédeas de seu corpo. 

Isso só se contribui com o design de produção, já que 80% do filme se passa dentro do cativeiro criado por Kevin. Um ambiente de poucas cores, poucos objetos de cena (no entanto, mesmo os poucos presentes em cena já revelam certos detalhes sobre o personagem), e uma luz amarela constante. Assim, o espectador não tem distrações visuais, e só consegue focar no rosto do antagonista do filme.

Que por si só, é uma figura fascinante. Isso se deve não apenas pelo roteiro de Shyamalan (que ao final do filme, expõe mais da cabeça do personagem), mas pela atuação de James McAvoy. Um ator muito talentoso, que nunca havia recebido um papel no qual pudesse explorar tanto. Sua atuação não impressiona apenas pelas diferenças entre cada personalidade (compare como seus braços ficam com Dennis e Hedgwig), mas quando de fato vemos a lenta transição de uma personalidade pra outra (pequenos sinais já indicando a troca, seja uma levantada de sobrancelha ou a maneira como os lábios se cerram). Se um ator menos versátil tivesse pegado o papel, o resultado em tela seria incrivelmente pavoroso. Mas com McAvoy, mesmo nos momentos mais exagerados e grotescos das personalidades, sua atuação jamais perde verossimilhança. 


O resto do elenco é igualmente competente, tendo como outro destaque a atriz Anya Taylor-Joy. Que já havia chamado atenção no excelente "A Bruxa", e aqui faz um papel mais discreto. De uma jovem que compartilha uma característica com Kevin (não direi qual é, por motivos óbvios), e que utiliza isso em seu favor pra interagir com as 24 personalidades. E retomando a tradição da filmografia do diretor, ela é como uma personagem de um conto dos Irmãos Grimm. Uma jovem que passa por uma situação extrema, vivendo stress e tensão não condizentes com sua faixa etária. Dando a denotação de que por mais racionais que sejamos, vivemos numa selva e somos animais (não é a toa, que o diretor constantemente enfoca leões e tigres ao longo do filme. Além de flashbacks sobre o ato de caçar).

Mesmo com muitos méritos, "Fragmentado" ainda exibe uma parcela de mazelas. A personagem da Dra. Fletcher (Betty Buckley) é uma mera muleta narrativa, servindo para fornecer informações sobre o personagem e só. Além de muitas vezes, o filme parece indicar que se passou muito tempo desde o sequestro das meninas, e no entanto estas não demonstram ter qualquer sinal de tempo, seja em suas vestes, ou até no stress que estariam vivendo por estarem há semanas presas. 

Apesar disso, "Fragmentado" é um ótimo suspense. Que além de contar uma história fascinante, ainda nos surpreende com um plot twist em seus dois minutos finais, que além de garantir uma continuação ainda nos confirma: Kevin e sua Horda são apenas o começo.

Nota: 8